21 settembre 2007

Eu quero ser um numero

Juro que não é trauma do meu sobrenome, que em alguns aspectos, pode soar como algo vulgar, mas essa historia de chamar pessoas pelo sobrenome, aqui na Itália, me incomoda demais. Já tenho uma dificuldade enorme de "dare del Lei", que seria chamar de "Senhor ou Senhora" pessoas desconhecidas, mais velhas ou que sejam consideradas mais importantes, ainda mais em lembrar o sobrenome das pessoas.
No Brasil, a Paula, o Pedro, o Zé, o João, são conhecidos assim pelo que são. Não importa para nos sabermos a sua origem, principalmente em momentos mais insignificantes. Aqui o que conta é o segundo nome de cada individuo e é absolutamente normal pessoas, até intimas chamarem uns aos outros com o sobrenome.
Hoje, tentando marcar uma consulta com o dentista que a Monica me indicou, fiquei indignada. A secretaria atende ao telefone e eu peço um horário. Ela então pergunta:
- Quem é você?
- Eu sou a Paula.
- Paola? Que Paola?
Já me irrito porque me incomodo profundamente com isso. Poxa. Eu sou a Paula e quero uma consulta. O que interessa o meu sobrenome? Mas lembro que estou no pais que ainda vive na era Romana e digo meu sobrenome.
- Mas eu não te conheço.
- Não, a senhora não me conhece... Seria possível uma consulta?
- Mas quem te indicou?
- Foi a Monica.
- Monica? Que Monica?
- Olha, eu não sei o sobrenome dela. Monica é minha amiga. Mas nunca me preocupei em perguntar o sobrenome dela.
- Estranho.
- Não é estranho, é questão de cultura. Podemos marcar a consulta?
- Eu só marco consulta se a pessoa me disser quem indicou.
- Mas o que vocês são? Um centro secreto de macumba ou uma clínica de dentistas?
- Uma clínica que se preocupa com quem vem aqui.
- Ok.. Vamos marcar a consulta e eu ligo para a Monica pergunto o sobrenome e retorno a ligação. Ok?
- Um minuto por favor.
.....
- Olha, eu não vou te marcar a consulta porque não tem mais horário.
A minha vontade era de mandar a mulher e toda a Itália pra aquele lugar que você sabe qual é. Mas paro, respiro fundo, choro e ligo pra Monica que é um amor e ligou para la dizendo que se é assim ela não indicaria mais ninguém.
Enfim... O povo complica a vida. O sobrenome é tão importante que ate meu sogro, quando reserva uma mesa em algum restaurante em Napoli, mente dizendo ser "Luigi Russo" que é o sobrenome mais comum na Itália, para que se por acaso ele decida não ir mais, os donos não fiquem chateados com ele numa próxima vez. Porque se ele disser o sobrenome real e não for, ele acha que vai ficar marcado pro resto da vida. Sabe, coisas que aconteciam no Brasil, em minúsculas cidadezinhas do interior há décadas atrás.
Quem não conhece a Itália, não imagina como são os prédios e condominios daqui. Esqueça tudo o que você vê no Brasil. Não tem porteiro. Fora dos prédios tem o interfone com todos os sobrenomes dos moradores. No primeiro ano que morei na Italia, custei a permitir que colocassem o meu la fora. Poxa! O interfone fica na rua, com acesso à todos. Eu não sei que tipo de gente passa na rua, não sei se tem alguém que possa fuçar a minha vida sabendo meu nome e sobrenome. Quero pelo menos poder morar em privacidade. Mas não. Tem que colocar, porque ate quando você pede uma pizza pelo delivery, o pizzaiolo pergunta o teu sobrenome que esta no interfone. Seria tão bom se fosse igual ao sistema dos predios antigos em São Paulo que quando não tem porteiro, colocam só um numero. Ok. Eu quero uma pizza, sou do apartamento 05 da Rua X.
E caros italianos, entendam... Eu não sou sou o membro de uma família, sou um individuo. E me chame de Paula. Pros íntimos sim é que quero dizer meu sobrenome. Pra você, não interessa.

1 Comments:

Anonymous Val said...

Oi Paula, acabei de conhecer o teu blog, e gostei muito do jeito que vocè escreve - nào te conheço mas parece que te ouço falar. :D

Vou voltar outras vezes. Abraço!

6:57 PM  

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